Gastão Debreix 2017-05-18T23:03:47+00:00

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Um lance de razão e sensibilidade

por Omar Khouri

Embora soubesse de sua existência há mais tempo, tive os primeiros contatos com Gastão Debreix em Pirajuí, a propósito de Poesia, na segunda metade dos anos de 1980. Dado o fato de eu ser poeta e coeditor de ARTÉRIA, ele me trouxe poemas que muito se aproximavam da prática dos caligramas, donde se podia depreender que eram exercícios, ainda incipientes, de alguém “do ramo”. Dois deles acabaram por integrar ARTÉRIA 5 e, daí para diante, Gastão passou a ser um contumaz colaborador da revista, publicação esta que pôde registrar a sua grande evolução, em termos qualitativos, e que acolheu o melhor de sua produção propriamente poética. Falar no Gastão Debreix produtor de linguagem é falar em criação intersemiótica, em encontro de códigos, em “poesia visual”. Falar em poesia visual no Brasil é relacionar nomes de relevo, onde necessariamente surge o de Gastão Debreix que, coisa rara, possui quatro ou cinco peças dentro do referido universo poético, que são obrigatórias em toda antologia do gênero que se preze. Na tentativa de apresentar o Gastão Debreix ser-inteligente-e-sensível-e-que-produz-trabalhos-que-roçam-o-admirável apontaria um seu poema escolhido em meio a uma produção não-volumosa, porém não-exígua, de qualquer modo, densa: a fatura POESIA, de 1991, que teve edição autônoma no mesmo ano – impressão serigráfica sobre papel. Em seguida, saiu em ARTÉRIA 6, ano de 1992, também impressão serigráfica sobre papel. Trata-se de uma das incursões metalinguísticas de Gastão, um dos trabalhos que mais o definem e o aquilatam, um dos melhores poemas visuais de quantos foram produzidos na última década do século passado. Olho tipográfico (tipomórfico, eu diria) aguçado, percebe coisas de uma sutileza ímpar e descobre outras tantas inúteis, não fora a dimensão lúdica e a gratuidade da própria Arte que, paradoxalmente é inútil e essencial. Coisa de Humanos-Seres. Tomando a palavra POESIA em caixa alta (uma helvética que subjaz e estrutura), primeiro percebe que nenhuma letra é repetida na sagrada palavra (nem sequer as redundantes vogais) e as superpõe centralizando, percebendo que em alguns pontos – em alguns pontos apenas – elas se encontram. A cada encontro – tendo codificado um comportamento gráfico para cada letra – vai se formando um desenho, que só se configura plenamente no ponto único – este sim! – em que as seis letras coincidem: resulta, daí, um quadrado com uma malha como que florida (um ladrilhado) e que o autor, então, tinge de amarelo para destacá-la ainda mais, como que querendo dizer: “Poesia é condensação”. Ao pé do trabalho uma espécie de escala-legenda com a progressão POESIA, que é, então, o que resulta da tal superposição. Se alguma semelhança há em POESIA com os chamados poemas semióticos, esta é casual, pois trata-se de uma realização mais feliz do que qualquer daqueles poemas dos anos de 1960, malgrado a sua importância para a época. O poema se constrói: todo o necessário rigor é colocado a serviço da sensibilidade para que o poema se configure pleno. Num tempo em que tudo se apresenta como disponibilidade para os poetas/artistas, que descobrem que tal técnica possibilita uma linguagem e, daí, a trabalham, fazendo coisas admiráveis, Gastão Debreix se apresenta como um artista-síntese, que absorve, matuta, elabora mentalmente e faz/constrói, sem medo do artesanato, que domina como poucos (o poeta labora mentalmente e, em seguida, manipula, manuseia, manufatura, sem medo de que mãos comprometam cérebro). Sem pré-conceitos. Da cor à letra, da madeira ao papel e à tela, da marchetaria à impressão serigráfica, do lápis ao teclado do computador. Razão e sensibilidade. Assim, Gastão Debreix vai perfazendo o seu caminho artístico-poético, misturando o ontem com o hoje e se projetando para o sempre. O futuro dirá melhor de suas grandezas. Este livro que ora se publica traz alguns fortes indícios da qualidade de que o trabalho de Gastão Debreix é portador. Dignifica ainda mais a poesia que o Brasil tem produzido, para entregá-la ao Mundo.

Omar Khouri, Mestre e Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, Livre-Docente em Teoria e Crítica da Arte pelo IA – UNESP. Professor Adjunto do Departamento de Artes Plásticas do IA – UNESP, campus de São Paulo. É poeta, editor e crítico de linguagens.